Fichamento: Teoria do não-objeto

 

Fichamento: Teoria do não-objeto

GULLAR, Ferreira. Teoria do não-objeto. 1977.

Objetivo

O texto de Ferreira Gullar propõe uma reflexão crítica sobre as tradições da pintura e da escultura, ao introduzir o conceito de “não-objeto” como uma nova forma de experiência artística, baseada na experimentação sensorial integrada ao espaço.

Ideias principais

O que é o não-objeto:


O não-objeto busca romper com os limites entre representação fictícia e realidade, através da eliminação das molduras, bases e a delimitação do espaço pictórico. Inserindo-se diretamente no espaço real, a transformação espacial é a própria condição do nascimento do não-objeto.


Não é uma representação, mas uma presentação. É uma obra livre de significação que não seja seu próprio aparecimento. Um quadro  nasce de fora para dentro, do significado usual, para uma nova significação. O não-objeto nasce de dentro pra fora: da não significação, para a significação. 


Essa experiência não é passiva. A maioria dos não-objetos exige o movimento e a participação do espectador, que deixa de ser apenas observador e passa a ser parte essencial da obra. É por meio de sua ação que o não-objeto se completa.


Além disso, o não-objeto não se esgota em usos ou significados cotidianos, pois não pertence à lógica d útil nem à designação verbal. Ele é uno, íntegro e transparente à percepção; não apresenta a opacidade dos objetos comuns. 


“O  não-objeto verbal é o antidicionário: o lugar onde a palavra isolada irradia toda sua carga.” Elementos visuais que explicitam seu significado.


Crítica à arte tradicional


A pintura e a escultura sempre estiveram ligadas à representação. Mesmo os tachistas e informais, movimentos que pareciam romper com a tradição, não superaram as limitações impostas pela moldura e pela base, nem abandonaram a ideia de representação do mundo real. Para esses artistas, a tela em branco continua sendo um mero suporte, um ponto de partida para criar o visível.





Se continuarmos tentando definir a arte com categorias antigas (pintura, escultura, etc), o conceito de arte perde o sentido. Por isso, precisamos entender arte como:

  • Experiência direta

  • Vivência sensorial

  • Algo que acontece entre obra+pessoa

A arte só faz sentido quando é vivida, não apenas observada e catalogada.


A morte da representação:


  • Impressionistas: transformam o objeto em manchas de cor


  • Cubistas: transformam o objeto em formas geométricas tridimensionais



  • Abstrata: eliminação do objeto (mas foge para o signo). Ao eliminar o objeto,o que resta é a tela em branco, que paradoxalmente se converte no próprio objeto.




O uso de elementos como areia e papel colado, denunciam essa necessidade de substituir a ficção pela realidade. O dadaísmo avança nessa direção ao inserir a arte no espaço real: obra e objeto se confundem. Mas, rapidamente, a obscuridade da “coisa” volta a envolver a criação, reconquistando-a para o nível comum. Fontana, por sua vez, tenta destruir o caráter fictício do espaço pictórico com um corte real, gesto que, ainda assim, só consegue efeito no primeiro contato. Essas obras não conseguem permanecer na ideia de não-objeto: são objetos incomuns, mas permanecem objetos.




Como observa Gullar: “Se a pintura que nada representa é atraída para a órbita dos objetos, com muito mais força essa atração se exerce sobre a escultura não-figurativa.” Esculturas sem base, sem representações figurativas e sem peso, seriam o ideal mais próximo de um não-objeto. Ao tentar seguir essa ideia, a pintura tende a aproximar-se da escultura e a escultura a afastar-se de sua própria natureza objetificada. Não se trata de simplesmente eliminar a moldura e a base, mas de criar sem o apoio destes elementos.


Um objeto pintado é um “quase-objeto”, mas não é um não-objeto. É, com referência ao objeto real, um objeto fictício. Pinturas não-figurativas (abstratas) ainda não chegam à esse conceito, porque seus elementos são substituição das coisas, uma alusão extrema a elas.

Conceitos

Espaço pictórico:
Área delimitada na superfície da obra (tela, papel, parede) onde o artista organiza elementos visuais para criar uma imagem.

Fase hermética (cubismo):
Fragmentação extrema da forma e uso de tons neutros e monocromáticos.


Fase sintética (cubismo):

Simplificação dos elementos em formas geométricas, cores vibrantes e colagem.

Informalismo:
Rejeita formas, planejamento e rigores. Foca na abstração e na emoção.


Objeto:

Coisa material naturalmente ligada às designações e usos cotidianos. Se esgota na referência de uso e de sentido. É um ser híbrido, composto de nome e coisa. Opaco, impenetrável e exterior ao sujeito.

Presentação:
Se apresenta como presença direta.

Representação:
Mostra ou substitui algo do mundo.

Tachismo:
Movimento de pintura abstrata europeu (anos 1940-50) inserido no informalismo, caracterizado pelo uso espontâneo e gestual de manchas, borrões e gotejamentos de tinta.




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