Exposição: A primeira vez que voei foi na pág. 35 - Maré de Matos

 “Se o tempo não continuasse

torceria para que começasse 

todo dia recém nascido 

engatinhando vocabulários antigos”


A exposição “A primeira vez que voei foi na pág. 35”, de Maré de Matos, integra a programação da “Bitita- Festa da Palavra", a qual se dedica à literatura, leitura e encontros da palavra com outras linguagens artísticas. 


Na Galeria Mari’stella Tristão, a artista apresenta um conjunto de obras diversas: pinturas em tecidos e telas, bordados e trabalhos audiovisuais; os quais orbitam em torno da palavra mas, sobretudo, das tradições do nosso país, entrelaçando linguagem, imagem e memória.


As possíveis interpretações dos elementos em exposição, mesclam reflexões acerca da oralidade brasileira, da colonização/ divisão do nosso território e da imaginação pessoal e coletiva do povo. Uma coisa que pensei muito sobre, foi na subjetividade da interpretação de cada observador das obras. Senti que o propósito de Maré de Matos foi justamente esse: despertar através da contemplação, sentidos adormecidos no interior das nossas memórias. 


Pontuo aqui, que a primeira instalação me interessou fortemente: um banner com os dizeres “Ori é mixa”. Interpretei "Ori" como referência ao termo de origem do iorubá que significa "cabeça"; e “mixa" (como "chave") simboliza abertura ou passagem. Dessa forma, a obra aponta para a ideia de que o pensamento, imaginação (ou o sonho), são a chave para alcançar algo maior, quem sabe a própria liberdade. Isso ganha força com o verso posicionado logo atrás dessa instalação: “dentro de mim sonho mais que sei/ de que são feitos os territórios imaginários?”, que desloca a reflexão para o campo político do território brasileiro. As nossas divisões territoriais, nesse contexto, revelam-se como um delírio de poder. 



“Sonhar é sério” vem logo em seguida, porque o sonho pode alterar o curso de uma história, Ele aparece como matéria primordial de agência individual e coletiva, origem de todas as revoluções. Dessa forma, a artista mostra um ponto de esperança ao sugerir a possibilidade de superar sistemas opressivos através da imaginação de outros futuros. Isso me lembra as pessoas, principalmente os jovens, pertencentes à classes sociais menos favorecidas, que têm o poder de transformar a história de suas famílias através dos seus sonhos.





Além deste, a instalação com a frase: “sentir terra, ser mapa, sonhar casa”, que também pode ser lida como “sentir casa, ser terra, sonhar mapa”, traz uma reflexão muito profunda sobre a relação entre os habitantes, o território e o poder, questionando quem sente, quem delimita e quem sonha o espaço que habitamos.





Muitas coisas chamaram minha atenção e provocaram reflexões que valem a pena ser discutidas, mas, infelizmente, não consigo discorrer sobre tudo aqui. Logo, resumidamente, a exposição de Maré de Matos foi muito interessante por mostrar essa relação entre a palavra e diversos estilos na arte, possibilitando interpretações para além do sentido lexical, integrando também a forma, movimento, materialidade e a história de um povo. 


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