Neoconcretismo: Os Bólides e Rebecca Horn
TRABALHO DE: Bianca Serpa, Henrique Lopes, Isabella Lopes, Mariana Manoel, Rafaela Melo.
Os Bólides
Os Bólides surgem em 1963, dentro do contexto do neoconcretismo brasileiro, como parte do Programa Ambiental de Oiticica, que também inclui Núcleos, Penetráveis e Parangolés. Eles não são uma fase isolada, mas uma ordem que se conecta e se funde com outras experiências, sempre em transformação.
Essas obras são definidas como transobjetos, ou seja, objetos cotidianos (caixas, vidros, bacias, tecidos, terra, pigmentos, fotografias) incorporados à arte e ressignificados. Ao perderem sua função utilitária, ganham autonomia estética e se tornam parte da gênese da obra. O público é convidado a manipular e interagir com eles, tornando-se “participador” e vivenciando cores, texturas e formas em uma dimensão sensorial.
Entre os exemplos mais marcantes estão o Bólide Caixa 1 “Cartesiano”, que subverte o racionalismo estético; o Bólide Vidro 4 “Terra”, que explora a imanência por meio de elementos naturais; o Bólide Vidro 5 “Homenagem a Mondrian”, que traduz o abstracionismo para uma experiência tridimensional; e o Bólide Caixa 18 “Homenagem a Cara de Cavalo”, obra política que denuncia a violência social e ressignifica a marginalidade.
A evolução dos Bólides vai das primeiras caixas e vidros (1963–65) à expansão para bacias, pedras, latas, sacos e camas (1966–67), ampliando a escala da mão para o corpo inteiro. Em 1969, surgem experiências suprasensoriais e o conceito de crelazer, que une criação e lazer. Em 1978, Oiticica radicaliza ainda mais com os Contra-Bólides, abolindo limites físicos e reforçando a ideia de obra como processo contínuo (in progress).
Do ponto de vista filosófico, Oiticica dialoga com Nietzsche (perspectivismo, vitalismo, eterno retorno), Deleuze (multiplicidade) e Marcuse (crítica à sociedade capitalista). Sua proposta é de uma anti-arte libertária, que rejeita categorias fixas e hierarquias, aproxima arte e vida, e valoriza a experiência imanente e coletiva.
Em síntese, os Bólides representam uma arte ambiental, interativa e política, que desloca o foco da interpretação racional para a vivência sensorial. São experimentos que questionam valores estabelecidos, aproximam arte e cotidiano e propõem uma nova forma de pensar e sentir a realidade, sempre aberta, vitalista e libertária.
Rebecca Horn
Rebecca Horn é uma artista alemã nascida em 1944, reconhecida internacionalmente por sua atuação na arte contemporânea, nas áreas de performance, escultura e arte cinética. Suas obras se destacam pelas relações entre corpo, movimento, espaço e máquina, criando experiências que muitas vezes são ao mesmo tempo poéticas e inquietantes.
Horn iniciou sua formação artística na Academia de Belas Artes de Hamburgo, na Alemanha. No entanto, ela passa a perceber de modo mais profundo essa relação entre os corpos após passar um ano internada em um hospital devido a uma intoxicação decorrente do uso de fibra de vidro nas aulas de sua faculdade. A artista passou todo esse período trancada em um quarto, e o convívio com seu próprio corpo e os limites físicos impostos pelas quatro paredes e psicológicos gerados pelo isolamento geraram reflexões em suas obras.
Foi a partir desse contexto que Rebecca Horn começou a criar obras voltadas para o corpo como instrumento e campo de experimentação. Suas primeiras produções eram extensões corporais, dispositivos que ampliavam ou modificavam o corpo humano.
Em Finger Gloves (1972), Horn desenvolve luvas com dedos extremamente longos que transformam completamente a relação do corpo com o espaço. Ao tocar superfícies, o movimento se torna mais amplo, porém menos preciso, revelando uma tensão entre expansão e perda de controle. A obra evidencia como a extensão do corpo também altera a percepção e a coordenação, tornando o gesto ao mesmo tempo mais sensível e mais instável.
Já em Pencil Mask (1972), a artista acopla lápis à cabeça de uma performer, de modo que cada movimento corporal gera marcas nas superfícies ao redor. O movimento aqui se torna registro: o corpo desenha automaticamente no espaço, transformando ação em traço. A obra enfatiza a relação entre gesto, presença e marca, tornando visível algo que normalmente seria efêmero.
Com o tempo, sua pesquisa evoluiu da performance para a incorporação de mecanismos e movimento autônomo, o que a levou à arte cinética. Nesse momento, o movimento deixa de depender exclusivamente do corpo humano e passa a ser produzido por máquinas, criando uma sensação de vida própria nas obras, utilizando diversos materiais, como tintas, objetos do cotidiano, as máquinas etc, sempre alcançando um surrealismo nas obras
Um exemplo marcante é Flying Books Under Black Rain Painting (imagens 1 e 2), em que livros são acionados por mecanismos que os fazem abrir e fechar, criando um movimento semelhante ao bater de asas. Ao mesmo tempo, jatos de tinta são lançados sobre os livros, fazendo com que a obra fique em constante transformação. O movimento é quase coreografado, segundo a autora, como uma dança.
Na obra Concert for Anarchy (1990) (imagens 3 e 4), um piano é suspenso de cabeça para baixo e programado para se abrir abruptamente, projeta as teclas para fora, quase como uma explosão, e depois volta ao normal. O movimento é repentino, violento e cíclico. Essa dinâmica simboliza, de acordo com Horn, a quebra na ordem e um grito emocional
Já em The Turtle Sighing Tree (imagens 5 e 6), a artista constrói uma instalação composta por tubos, funis e mecanismos que emitem sons de respiração e sussurros. Aqui o movimento é mais sutil, o ar circula pelos dispositivos, criando uma sensação de organismo vivo. A obra representa uma presença sonora que envolve o espectador, gerando uma experiência imersiva e quase meditativa.
Essas obras evidenciam um aspecto central da produção de Rebecca Horn: a ideia de que a arte não se limita ao objeto físico, mas se realiza na experiência que ele proporciona. Assim, sua arte se relaciona com o conceito de “não-objeto”, pois a obra deixa de ser entendida como algo fixo e restrito e passa a existir na relação entre movimento, tempo, espaço e percepção do espectador. O que define a obra não é apenas sua materialidade, mas o conjunto de sensações, visuais, sonoras e corporais, que ela ativa.
MANIFESTO neoconcreto (1959). Do Próprio Bolso, [s. l.], 1959. Disponível em: https://www.dopropriobolso.com.br/index.php/cultura-geral-80603/47-textos-escolhidos/2214-manifesto-neoconcreto-1959. Acesso em: 18 abr. 2026.
CLARK: uma experiência radical. Portal Lygia Clark, [s. l.], 22 mar. 1959. Disponível em: https://portal.lygiaclark.org.br/acervo/5957/clark-uma-experiencia-radical. Acesso em: 18 abr. 2026.
REIS, Carolina. Morre Rebecca Horn, artista experimental da arte-cinética. Arte que Acontece, [s. l.], 9 set. 2024. Disponível em: https://artequeacontece.com.br/morre-rebecca-horn-artista-experimental-da-arte-cinetica/. Acesso em: 19 abr. 2026.
REIMANN, Sandra Beate. How Rebecca Horn expanded the boundaries of the human body. Art Basel, [s. l.], 6 abr. 2019. Disponível em: https://www.artbasel.com/news/rebecca-horn-museum-tinguely-koerperfantasien-art-basel. Acesso em: 19 abr. 2026.
REBECCA Horn – Body Extensions and Isolation | Fresh Perspectives | Tate Collective. [S. l.]: Tate, 11 dez. 2016. 1 vídeo (4 min). Publicado pelo canal Tate. Disponível em: https://youtu.be/6uEkq3IBIf0. Acesso em: 21 abr. 2026.
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